Precisamos conversar sobre ética 

O impasse entre aceitar o mundo ou tentar transformá-lo não é só um dilema político, mas também ético

A percepção de que o mundo atual está em crise se tornou comum. A crise é um estado de colapso, de anormalidade, de tensão ou de conflito que interrompe o fluxo normal das coisas conhecidas em contextos pessoais, coletivos ou institucionais, no qual as pessoas têm esperança e até mesmo sonhos de felicidade, ou pelo menos de uma vida digna e justa.

Por outro lado, há quem argumente que, na verdade, chegamos a um colapso. De fato, a crise parece ter deixado de ser temporária e se tornado permanente. Nesse caso, o que chamaríamos de crise, deixou de ser exceção e se transformouem regra. Para muitos, o sofrimento se instaurou como um fator inevitável e incontornável, como uma lei à qual as pessoas tem que se submeter, como uma verdade absoluta. Quem diz que “o mundo vai mal” expressa esse sentimento generalizado e muitas vezes aceita esse fato como se o mundonão pudesse ser diferente. 

Nesse contexto, uma questão se impõe: devemos aceitar o colapso, ou seja, um estado de coisas que, em vez de esperança e felicidade, nos lega sofrimento e desespero? Certamente, o poder individual é sempre muito pequeno ou inexistente quando se carrega no corpo marcas de opressão (a condição de mulher, trabalhador, negro, periférico, transgênero, homossexual, deficiente físico, neuro-divergente, imigrante, indígena, etc.) que impedem as pessoas de fazerem escolhas realmente livres devido às determinações sociais e históricas em que vivem. Na contramão, ricos, brancos, homens, etc. em seu lugar identitário de privilegiados, concentram todo o poder e agem em beneficio próprio organizando sistemas como o neoliberalismo no qual a maioria da população é simplesmente manipulada e subjugada por uns em detrimento de outros. 

Quando nos colocamos a questão de aceitar o mundo ou tentar transformá-lo, estamos em um impasse que não é apenas político, mas também ético. Certamente, o que chama à responsabilidade particular é justamente o impulso ético de cada um, que é vivido como angústia por muitos diante de tantos problemas sociais e políticos, mas que anda em baixapara a grande maioria. Ao mesmo tempo, mesmo sabendo que transformar o mundo não pode ser uma mera fantasia particular, como impulso ético, isso não deveria ser simplesmente abandonado. 

É verdade que muitos tentam simplesmente se encaixar no sistema sem muito questionamento por que a necessidade de sobreviver sempre fala mais alto. Ao mesmo tempo, ninguém é obrigado a aceitar a catástrofe do mundo produzida porideias e mãos humanas que trabalham apenas em nome próprio detendo o poder econômico e político e usando de manipulações para manter privilégios. A indignação é um primeiro sinal de que a subjetividade não esta morta. Para quem sofre os efeitos das decisões soberanas de poderosos, a escolha hoje é sobre aceitar a catástrofe do mundo tratando-a como normal ou se colocar a questão de sua superação. Um problema gigantesco em relação ao qual não adianta apenas demandar que cada um faça a sua parte, pois as pessoas já não sabem o que fazer. Os referenciais da ação foram perdidos no meio da luta por sobrevivência em um sistema econômico e social hostil para a maioria. 

Nesse sentido, não se trata mais de enfrentar um ou vários momentos difíceis próprios à ideia de crise, não se trata apenas de resolver uma situação problemática temporária, mas de promover mudanças estruturais capazes de alterar a forma de vida social causadora de sofrimento e infelicidade. 

 

Toda crise tem, em seu fundo, uma crise ética

 

O caráter permanente da crise, seja ela climática, social, econômica ou política coloca, sem dúvida, o problema em um outro patamar. Certamente, esse patamar concerne à ética. Muitos dirão que o maior dos problemas das sociedades atuaisé o econômico, ou é o político. Que o problema é o poder e se relaciona ao modo como grupos usam e abusam do poder que detém. Que o fundamento da desgraça atual é a violênciaeconômica e social pela qual populações inteiras são subjugadas. E de fato, não estão errados. A política é o campo da ação relacionada ao poder, ao que os governantes, líderes, chefes, ou seja, a todos os que detém uma posição soberana e decisória, são capazes de fazer com os outros. O que vem sendo esquecido, ou apagado, é que, a política depende da ética, ou seja, é a instância ética que gera a política. 

Seja a grande Política com P maiúsculo, no sentido do campo da vida humana, das relações sociais e institucionais, seja a política no sentido burocrático e partidário, ela sempre depende da ética, ou seja, depende de sujeitos capazes de decisão livre e responsável. Por trás das ações humanas que levam às crises transitórias ou ao colapso geral, está o problema ético que mora no fundo das decisões políticas que organizam a vida em sociedade. Em resumo, no fundo do sistema do mundo em crise permanente ou colapsado, repousa a fratura ética dos donos do poder e dos assujeitados ao poder. Em termos simples, isso quer dizer que todos são sujeitos éticos – ou anti-éticos -, ou seja, todos, com poder ou sem poder, tem graus diversos de liberdade e, portanto, de responsabilidade. 

 

Pensar e agir

 

O problema ético relaciona-se a um determinado modo de pensar que leva a agir. Em outras palavras, é um modo de pensar que alicerça o mundo tal qual o conhecemos e nos leva a agir em conformidade com o todo no qual estamos inseridos. Em temos mais eruditos, podemos falar em “epistêmes”, a base estrutural do pensamento que alicerça visões de mundo, discursos e o todo da produção de conhecimento organizando instituições, sejam privadas, sejam públicas, incluindo hoje a vida digital, a internet como plano social. 

O modo de pensar e compreender as coisas de cada um deriva de visões de mundo anteriores e sedimentadas como discursos e práticas simbólicas. Certamente toda a nossa subjetividade é forjada por determinações de classe, raça e gênero, mas também condições físicas, etárias, geopolíticas, culturais e religiosas entram em jogo quando se trata de pensar de uma maneira ou de outra. Acreditamos que pensamos por conta própria e que agimos autonomamente, mas isso é apenas uma ilusão. Assim como nosso corpo deriva de processos genéticos, alimentares, ambientais, de determinados exercícios, das substâncias que ingerimos, nossa subjetividade (nosso espírito, nossa vida interior, nosso desejo, nossa linguagem, nossa mente como um todo...) depende do que lemos, do que ouvimos, da nossa formação, educação, dos contextos culturais em que estamos inseridos ou expostos. Em palavras, somos feitos de linguagem, de simbolismos e discursos que se sedimentaram no tempo e nos levam a pensar e a agir de maneira mais ou menos autônoma. Tudo o que fazemos depende de uma ética que nos determina e o grande desafio é tornar-se capaz de autonomia em um mundo que nos escraviza a situações e valores nem sempre condizentes com nosso desejo e que nem sempre melhoram a sociedade em que vivemos. 

O que é ética?

Ética vem da palavra grega “ethos” que significa morada, lugar onde se vive. Podemos traduzir ética por jeito de viver no lugar que habitamos. Muitas vezes a palavra moral é associada à ética, contudo, moral tem mais a ver com regras de conduta a serem seguidas dentro de determinados contextos. A ética implica uma reflexão sobre o que se faz que exige autonomia do pensamento para gerar autonomia da ação, enquanto a moral tem a ver com preceitos que devemser obedecidos. A heteronomia da moral, no máximo, gera culpa, já a ação livre que caracteriza a ética exige responsabilidade. O sujeito responsável é o sujeito livre e vice versa. Autonomia, contudo, não significa alienação ou desligamento, mas sim, capacidade de sustentar a coerência entre pensamento e ação e responder pelo que se faz preservando a liberdade que é anulada no momento em que alguém comete o mal ou um crime, pois não se pode mais voltar atrás e apagar o que foi feito. 

A ética surgiu na filosofia antiga para tratar dos assuntos humanos relativos justamente à ação. Até hoje, ela se refere à discussão sobre a produção da subjetividade capaz de liberdade, autonomia e responsabilidade.  

Se ensinar a pensar é a tarefa filosófica por excelência, a tarefa da ética é ajudar a pensar para agir tendo em vista os desafios do mundo atual marcado por conflitos diversos e novas formas de relação social dadas com o surgimento da internet. Pensar para agir quer dizer decidir, tomar a atitude correta, o que não se faz sem reflexão. Mas o que é uma açao correta de um ponto de vista ético? É aquela que mantém a liberdade de cada um e o direito de ser quem se é respeitando o direito do outro ser que me ele é. 

Ao refletir sobre a ação humana, sobre “o que fazer” diante de desafios, a ética apresenta caminhos para recuperar referenciais abandonados e construir novos referenciais para uma vida mais digna tanto individual quanto coletivamente. 

 

Por que não falamos mais em ética?

 

A ausência de reflexão está na base do colapsamento do mundo, das catástrofes sociais e até mesmo de certas catástrofes ambientais geradas no chamado “capitalismo de desastre” que dá lucro a alguns poucos em detrimento da vida de muitos e do meio ambiente. Ao mesmo tempo, uma espécie de regra básica, a do individualismo (que nada tem a ver com a individualidade e singularidade de cada um), instaura a impressão de que todos agem livremente conforme seus direitos, infelizmente esquecendo os direitos dos mais necessitados e vulneráveis. Atualmente, há muita confusão em relação a posturas violentas e até mesmo criminosasjustamente porque muitas delas se passam por naturais: da violência contra mulheres e crianças ao racismo, da misoginia à corrupção, crescem preconceitos e opiniões prepotentes em um cenário de desordem cognitiva que vem se desenhando há muito tempo. Não é apenas a justiça – ou o sistema de justiça - que falha ou que serve apenas às classes dominantes, na verdade, são os patamares éticos que esboroaram junto aos patamares cognitivos. 

Podemos também resumir a questão nos seguintes termos: “em que sentido a ética poderia nos ajudar a melhorar o mundo?” Essa é uma pergunta que precisa ser recolocada em cena, mas se até mesmo a palavra ética desapareceu das conversas, das analises e dos discursos, como fazer para retomar esse tema? Há um bom tempo, uma ideia fixa de que tudo se resolve “na economia” ou “na política” jogou a ética no lixo. Precisamos voltar a ela por que ela é o caminho para pensar a individualidade aberta ao outro em tempos de individualismo neoliberal que se sustenta na negação da alteridade. 

Quando as pessoas falam em “perda de referenciais”, muitos pensam em perda de lideranças políticas ou religiosas, perda de fundamentos morais, religiosos, ou perda de paradigmas de luta. Desde o advento da internet as pessoas tem se conectado cada vez mais a um ambiente que está bem longe da natureza e da ideia de sociedade do passado. Vivemos em um mundo que era estranho a nós, um mundo fraturado e fragmentado pelas redes sociais. Precisamos entender esse novo território e seus jogos de poder para organizar o convívio. 

 

Para refletir

 

A crise ética é a crise da subjetividade, abalada por novas formas de relação e de interação com o mundo ao redor e as outras culturas. É a crise sobre quem somos e quem podemos nos tornar considerando uma sociedade cada vez mais complexa, inclusive diante da vida virtual. As pessoas buscam respostas e amparo para o sofrimento tanto na religião quanto na psicologia, outros se entregam desesperadamente ao consumismo e outros vícios desorientados em seus narcisismos. Voltar a refletir com cuidado e atenção sobre o sentido e o desafio da existência e sobre nossas responsabilidades pessoais e sociais pode ser o melhor caminho para uma vida menos desamparada. 

Três perguntas podem nos ajudar nesse caminho: 1- “Quem nos tornamos nos processos pelos quais passamos ao longo da vida?” 2 – “O que estamos fazendo uns com os outros?” e 3 – “Como podemos viver juntos?”. Refletir e responder a essas perguntas se torna essencial quando precisamos produzir o futuro que desejamos na era das desafiadoras novas tecnologias digitais e da crise climática e ecológica. 

(Prometo responder a essas questoes num próximo artigo).

Acesse aqui a matéria original na Revista Liberta
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