Nós e a inteligência artificial
Uma reflexão filosófica sobre nosso novo modo de ser
Hoje vivemos duas vidas, a vida concreta, cotidiana, e uma outra vida que não deixa de ser concreta, mas que ainda parece muito estranha para certas gerações marcadas por hábitos analógicos. Trata-se da vida digital, uma vida que pode parecer abstrata e irreal porque é baseada em simulações e que vem mudando nossos hábitos e, assim, o que entendíamos por cotidiano. Se a vida analógica é orgânica e mecânica, ela ainda exige a nossa ação física e nos dá muito trabalho. É uma forma de vida que testa a nossa inteligência natural a todo momento. Já a vida digital exige outras habilidades. Não mais a de mexer apenas com instrumentos e máquinas que dependem de nós, como uma máquina de escrever, de lavar roupa ou um carro, mas de operar “aparelhos” que nos ocupam como se fossemos seus funcionários. Vivemos hoje, junto a máquinas inteligentes que não exigem muito daquilo que podemos definir como nossa inteligência natural. Estamos na era da terceirização da inteligência e, certamente, o todo da nossa experiência humana está sendo alterado, inclusive na direçãoo de um devir “ciborgue”.
Ramo da ciência da computação que se dedica a criar sistemas capazes de realizar tarefas que ja nao exigem muito da inteligência humana, a chamada “IA” se encontra ao alcance de todo mundo. Do reconhecimento da fala à interpretação de imagens, da criação de textos à tomada de decisões, a IA atua como se fosse humana, simulando competências humana que, qualquer um pode usar como se fosse sua. A IA é gerada por tecnologias capazes de gerar algoritmos e modelos que em tudo copiam métodos humanos e, em casos de processadores de textos, por exemplo, se apropriando de trabalho humano que vai se acumulado na internet, ela mesma uma terra sem lei.
A Inteligência Artificial – nas suas várias moralidades - mudou nossa experiência de mundo a ponto de ser difícil imaginar uma vida sem ela. De fato, o que entendemos por “ser humano” tem se modificado ao longo das eras. Há quem diga que já somos ciborgues, naturezas híbridas, “Máquinas do Amanhã”, considerando que estamos evoluindo com as tecnologias e, podemos dizer, conforme as possibilidades que elas criam para o nosso desenvolvimento. Um entrelaçamento ontológico entre o antigo parâmetro do carbono e o novo parâmetro do silício na conformação da matéria já é uma questão que muda qualquer discussão em torno de velhos problemas metafísicos da filosofia e da literatura que se perguntam sobre “a matéria de que somos feitos”...
Como corpos humanos, desenvolvemos uma relação de interdependência com a cultura digital, a tal ponto que não saberíamos viver sem ela. Os aparelhos são próteses de conhecimento e isso quer dizer que passamos a depender deles. Normalmente o que pensamos, o que sentimos e aquilo em que acreditamos, definem nossas ações, mas a ação digital passa a definir o que pensamos, o que sentimos e aquilo em que acreditamos (vide o caso da mulher que acreditou que estava falando com Brad Pitt e foi esperar por ele no aeroporto).
A Inteligência Artificial está em nossos computadores e smartphones, nos carros de direção autônoma, na medicina que calcula cada célula dos nossos corpos, mas também na invenção de imagens, vídeos e textos, na cultura e na arte que antes apenas existiam em conformidade com a criatividade humana. Agora é a criatividade da máquina que, entrando em jogo e tendo uma ampla autonomia em relação ao que humanos desejam delas em suas operações, nos faz dançar conforme a música. No mundo da vida, algoritmos passam a organizar e influenciar raciocínios, opiniões, emoções, escolhas em relação à política e à economia, mas até mesmo escolhas amorosas construindo avatares do “par ideal” através de inteligência artificial. Passando a orientar a vida humana, ainteligência artificial vem a se confundir com ela. Mas o que é a vida humana a partir do momento em que começamos a viver sob os parâmetros do digital?
Hoje em dia falamos em “tecnologias ciborgues”. Otelefone celular se tornou uma espécie de prótese, mas há muitos outros aprimoramentos robóticos que aumentam as capacidades físicas e intelectuais das pessoas. Aparelhos de audição e outras próteses físicas desenvolvem interfaces cérebro-computador. O campo da biologia sintética já começa a usar algoritmos de IA para aprimorar o corpo humano, calcula-se sobre o DNA para combater múltiplas doenças, mas também o envelhecimento, e até mesmo criando órgãos para implante e transplante. Fala-se, inclusive, de usar a IA para a liberação regulada de dopamina no organismo, quando ela se torna uma chave para a realização de uma espécie de felicidade inorgânica vivida como se fosse o objetivo último da existência. Nesse sentido, a IA é a nova promessa de felicidade que pode parecer ficção, mas é o que vem acontecendo de maneira acelerada.
Do ponto de vista do aumento da produtividade no trabalho, a IA serve ao sistema produtivo em vigência que é o capitalismo, tendo se desenvolvido a partir dos seus princípiosno começo da modernidade europeia. A racionalidade técnica é a racionalidade da dominação, já diziam Adorno e Horkheimer há quase um século, e isso quer dizer que os donos dos meios de produção digital são os novos donos do mundo. Ao mesmo tempo, a ideia de que as máquinas vão nos emancipar do trabalho árduo segue em vigência. No entanto, se fala muito pouco sobre as pessoas que não conseguem se integrar no sistema ou são excluídas dele. Fala-se muito pouco também sobre os impactos da vida cibernética na subjetividade humana e nos jogos de poder atuais.
A noção de natureza humana sofreu abalos ao longo da história, mas nenhuma se compara à hipótese de uma fusão humano-máquina radical. Fala-se em “transumanismo” e em “pós-humanidade”, sendo que, nas próximas décadas, é provável que os sistemas de IA atinjam um nível de inteligência semelhante ao humano, conhecido como Inteligência Geral Artificial (AGI) confundindo o campo da linguagem. O que poderá ser chamado de linguagem humana e de linguagem de máquina nesses contextos?
O autoaperfeiçoamento da IA pode produzir um aprimoramento contínuo até o nível da chamada “superinteligência”. Cientistas, filósofos e tecnólogos alertam sobre os perigos dessa forma de superinteligência para a humanidade. Especula-se sobre a possibilidade de que essa inteligência não compartilhe dos valores humanos e possa se tornar sua mais nova inimiga. Já não poderemos dizer que o futuro a Deus pertence, porque ele pertence à essa inteligência que está já acima de todas as outras. A pergunta crucial a ser feita, diz respeito à ética humana. Como seres humanos, saberemos evoluir humanamente, ou seja, como seres sociais, empáticos, democráticos, diante de um modo de vida que em tudo demanda a nossa dessubjetivação e robotização, ou seja, justamente a nossa “desumanização”?
Publicado originalmente na Revista Liberta em 17 de Janeiro de 2026.