Márcia Tiburi: “o feminismo é uma proposta de mundo”

Em entrevista à Fórum, filósofa afirma que patriarcado precisa ser encarado como regime de poder e não apenas como uma "cultura"

Por: Alice Andersen Publicado: 09/01/2026 - às 09h18Atualizado: 09/01/2026 - às 09h46| 4 min de leitura

A filósofa e escritora Márcia Tiburi foi entrevistada pelo programa da Fórum Sindical desta quarta-feira (7) e falou sobre a naturalização das violências contra mulheres. Segundo ela, os crimes contra as mulheres e o feminicídio não podem ser tratados como um desvio social ou um problema pontual, mas como parte estrutural de um regime político de poder: o patriarcado.

O debate também partiu do impacto das manifestações organizadas por mulheres no final do ano passado e da divulgação de novos dados do Mapa da Violência, que apontam crescimento de assassinato de mulheres, especialmente em São Paulo. A entrevista teve como eixo central o livro Ninfamorta, no qual Tiburi destrincha o caráter estrutural e histórico de ódio às mulheres no mundo.

A pesquisadora explicou que a obra é resultado de mais de duas décadas de pesquisa. “É um assunto complexo. Eu tô escrevendo esse livro faz duas décadas, pelo menos, pesquisando esse assunto”, afirmou. Segundo ela, a publicação coincidiu com um momento histórico de maior conscientização sobre o feminicídio, o que fez com que o livro “encontrasse o momento”.

Um dos pontos centrais da análise é a imagem que abre Ninfamorta: uma gravura de 1901, do artista Max Pirner, acompanhada da inscrição em latim Homo homini lupus — “o homem é o lobo do homem”. Tiburi detalhou a escolha. “Quando a gente olha com mais cuidado, a gente vê que o corpo desse corpo feminino, ele é animalizado”, descreveu, destacando que a figura representada é uma mulher suspensa, com traços híbridos entre humano e animal, pendurada por outras figuras.

Para a autora, a imagem revela uma contradição do pensamento político ocidental. “Se o homem é o lobo do homem, e a gente está falando de uma cultura patriarcal em que o homem é o universal, por que que uma mulher é colocada ali naquele lugar como se ela fosse a metonímia da condição da humanidade?”, questionou. A resposta, segundo Tiburi, está na noção de exceção: “Uma mulher nunca pode ser um universal. Colocada nesse lugar do universal, ela é, na verdade, uma exceção”.

No livro, Tiburi também propõe o conceito de “genecropolítica”, que busca dar conta da conjuntura de violência contra mulheres. “A genecropolítica nada mais é do que o cálculo que o poder faz sobre o corpo de uma mulher”, explicou. Esse cálculo, segundo ela, atravessa o controle psíquico, sexual, estético e reprodutivo, culminando no feminicídio. “Tem sempre uma arma apontada para uma mulher”, disse, ao definir o que chama de “ameaçabilidade”.

A filósofa criticou tanto teorias clássicas quanto abordagens contemporâneas que, segundo ela, deixam as mulheres fora do centro da análise. “Todos eles são ótimos, incríveis, maravilhosos, mas eles estão esquecendo da matança das mulheres”, afirmou, ao comentar autores como Foucault e Achille Mbembe.

Tiburi destacou ainda que o termo genecropolítica é inédito: “Nenhum livro, nem em inglês, nem em alemão, nem em francês, ninguém falou desse termo. Saiu aqui do Brasil de cima da minha mesa de trabalho”.

Outro ponto da discussão foi a relação entre patriarcado, capitalismo e fascismo. “O patriarcado inventou o capitalismo”, diz a pesquisadora, sustentando que o racismo e o fascismo são desdobramentos dessa estrutura. De acordo com ela, o sistema se respalda historicamente pela autorização masculina.

O sistema patriarcal é um sistema de poder de matar. É um sistema em que está em jogo sempre a soberania masculina, que precisa ser sustentada a partir da ameaça de morte sobre as mulheres”

Essa autorização aparece, segundo a filósofa, em políticas públicas e projetos legislativos, especialmente no debate sobre o aborto e outros direitos das mulheres. “O Congresso Nacional tem tratado a questão do aborto como um projeto de feminicídio indireto”, disse, ao denunciar propostas que restringem direitos mesmo em casos já previstos em lei. “Elas foram condenadas à morte pelo Estado. Que não tem pena de morte, só para as mulheres.”

O feminismo é uma proposta de mundo. E do meu ponto de vista, inclusive, essa é a minha tese mais arrojada, eu nem escrevi tanto sobre isso no livro, mas eu ainda vou escrever um livro sobre isso. A ideia de que o feminismo é a evolução”

Assista a entrevista completa clicando AQUI<<

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