Epstein, um terrorista sexual construindo o arquivo do abuso Brotheragem
Um estarrecimento avança pelo mundo afora. É o caso Epstein, cujo conteúdo demorou para viralizar entre as massas, embora as denúncias estejam sendo feitas há um bom tempo por algumas de suas vítimas.
A primeira coisa que precisa ser dita sobre esse caso é que ninguém pode negar que a voz de uma mulher sozinha não vale muito diante de um homem poderoso, blindado justamente por seus pares em jogos de poder.
No caso de Epstein, esses jogos envolviam pedofilia. Os homens implicados diretamente estavam alinhados em torno desse objeto comum. Eles ultrapassaram os limites da lei, da moral e da ética, abusando e violentando meninas. Acreditando que ninguém jamais iria descobrir, denunciar ou se insurgir contra isso, eles seguiram por anos amparados em dinheiro e fama. Foi apostando cinicamente que nada aconteceria que Donald Trump prometeu durante suascampanhas presidenciais que divulgaria os arquivos do mal que, depois, veio a tratar como invenção dos democratas.
A pedofilia sempre foi uma palavra usada na retórica da extrema-direita contra a esquerda até que as máscaras dos extremistas de direita começaram a cair.
Não por acaso, Trump era o principal parceiro de Epstein ou, pelo menos, o mais assíduo dos pedófilos, mais citado do que Jesus Cristo na Bíblia, como apontaram alguns. Ora, o poder de um homem não seria nada sem os seus “parças”, os “brothers”, com os quais estabelecem entre si um vínculo inquebrável, o da comunidade de “machos”, expressão que define bem o que, de maneira menos popular, vem a ser o“patriarcado”.
Atualmente “Red Pills” e “Incels”, para mencionar os grupos mais conhecidos, resolveram transformar essa unidade masculina em capital. Nas redes sociais da internet eles monetizam sua performance de ódio, transformando a misoginia em mercadoria. O ódio é como uma droga viciante, assim como pode ser o sexo, inclusive esse tipo de sexo criminoso praticado contra vulneráveis. Não se pode apagar a falta de ética desses homens unidos nesse jogo enquanto objetificação do outro que é destituído de sua liberdade de escolha. Que um abusador sexual como Epstein seja íntimo de um abusador político como é Trump, ele mesmo um abusador e estuprador sexual, é apenas um dado lógico.
De fato, esse tipo de organização que se expande nas redes sociais constitui um abuso da democracia. Entendem a democracia como o estado do vale-tudo até comercializar meninas para sexo. Os odiadores crescem na economia e na política enquanto ganham compensação emocional para suprir seus egos frágeis cada vez mais inflados no ato de subjugar outrem. A masculinidade tóxica está presente aí, prometendomelhorar o ego de indivíduos que não suportam perder espaço num mundo democrático e melhor para as mulheres e as crianças que o patriarcado pretende humilhar.
Epstein não fez diferente de Red pills e Incells reunindo os seus, homens idênticos a ele, brancos e ricos que tinham predileção por meninas e adolescentes reduzidas em sua humanidade a um tipo de “carne” apreciada no mercado como iguaria.
Misoginia e prova de masculinidade
Sejam Red Pills, Incels ou Epsteiners, grupos de homens se organizam formando vínculos comunitários em torno do ódio às mulheres. Em torno desses círculos menores de tamanho variável, um círculo maior (que durante muito tempo foi chamado de “universal”) abarca tudo. Esse é o círculo desilêncio que une todos os homens em torno desse caso e de muitos outros semelhantes em que dinheiro, poder e fama estão em jogo.
De fato, quando se trata de “masculinidade”, devemos refletir sobre o teor do vínculo entre homens que se forma tendo-a como parâmetro. A masculinidade não é apenas uma característica, mas o próprio elo masculino, ela é o código que une os homens. Trata-se de uma performance simbólica, estética, linguística que cria uma espécie de “clube” em que a prova de masculinidade é necessária para gerar admissão. O que homens fazem entre eles e qual o papel das mulheresnesse jogo masculino, ou seja, como as mulheres são usadas, qual sua função no momento de se estabelecer esses vínculos, é o que precisa ser compreendido.
A masculinidade é um valor partilhado que necessariamente implica a misoginia. Ou seja, homens provam que são homens, se tornam “masculinos” e “viris” quando odeiam mulheres. A misoginia é mais importante que qualquer outra demonstração apresentada como prova de macheza. Eles se unem em torno do ódio se afirmando como homens perante os outros, garantindo seu lugar na comunidade. É através do ódio verbal ou físico expresso sempre como violência que um homem garante seu lugar ao sol no patriarcado. Dissidentes desse jogo serão odiados como mulheres.
Para obter esse lugar, um homem precisa investir no figurino e na performance, no corpo que pode praticar violência. Daí o culto masculinista da força física, de um corpo que performatiza a violência possível. Na falta disso, homens com corpos frágeis, magros, sem músculos – ou seja, com o que no clube dos machos soa como um déficit de masculinidade, podem sempre intensificar a violência verbal e a violência de autoria clandestina atrás de telas de computador. O importante é odiar.
Um homem pode também aportar sua branquitude e seu dinheiro para garantir seu lugar no clube da violência misógina. O importante é se manter aparecendo perante os outros como um macho capaz de violência, da qual a violência sexual é essencial, pois as mulheres valem no circuito como coisa sexual. A masculinidade vem a seconfigurar como um capital e a masculinidade tóxica aliada ao grotesco sexual vem a ser um verdadeiro dispositivo de poder.
O corpo do homem é o capital, o valor fundamental na sociedade patriarcal. A produção de uma “comunidade de machos” garante um lugar para esses corpos no contexto da “fratria” (brotheragem), ou seja, um contrato social-sexual entre iguais pelos quais indivíduos são integrados e socializados em nome da proteção do grupo. Eles abdicam da liberdade como em todo contrato social.
No contrato proposto por Epstein, as meninas eram a carne e o sangue em jogo. O que Epstein construiu foi uma fratria branca, necessariamente racista que se dava ao direito de escolher o corpo-criança de meninas marcadas pela pele branca, fetichizando-a como coisas.
O desmentido prévio e o silenciamento das vítimas
Com a abertura desse imenso arquivo de terror sexual com mais de 3 milhões de páginas (dentre 180 mil imagens) produzido por Epstein ao longo de anos, expõe-se à luz do dia informações estarrecedoras e todo tipo de prova visual e textual dos crimes cometidos pelo predador sexual que administrava uma rede comercial de tráfico de corpos para uso sexual e outros fins.
A divulgação desses arquivos, veio confirmar que as vítimas tinham razão, mas que, ao mesmo tempo, sua voz não bastava para que essa razão fosse reconhecida. Na cultura machista, apalavra de uma mulher violentada raramente é escutada. Quando há violência, é preciso que haja provas que estão para além da sua voz, sendo que essas provas nem sempre contam quando a vitima é considerada culpada pela violência que sofre. As mulheres seguem de mãos amarradas como gostam os perversos. É um fato que, mesmo que as provas venham a dar razão a uma mulher, ela permanece valendo pouco ou nada; seu testemunho é um fator secundário, como é secundário o corpo de uma mulher, assim como sua vida e sua morte cada dia mais banalizada no contexto do patriarcado letal.
Ao não serem foram ouvidas, as mulheres se tornam vítimas em uma segunda potência, vítimas de uma espécie dedesmentido prévio. O que psicanalistas chamam de “desmentido” é um fator essencial à sobrevivência do patriarcado. Quando uma menina conta a alguém que foi abusada e o ouvinte não acredita na criança, ela sofre um desmentido.
Ora, não se acredita numa criança, como não se acredita numa mulher, porque as mulheres, assim como as crianças, são tratadas como seres “menores”. Ambas são tuteladas. Por isso, o “desmentido” deveria se transformar num valor jurídico de indenização. Uma pessoa que fala a verdade na condição de vítima ou testemunha e não é acreditada deveria ser indenizada por descrédito quando se provar que ela tinha razão.
O desmentido é ele mesmo uma violência que faz parte do cálculo do abuso (lembremos do caso Mariana Ferrer violentada e tratada pelo próprio juiz como culpada). Epstein e seus acólitos e parceiros contaram também com odesmentido prévio ou desmentido naturalizado ao qual toda mulher está submetida no patriarcado. Por isso, seguiram agindo até que o desmentido se tornou insustentável e agora, com os arquivos abertos, temos a prova cabal e estarrecedora.
Mas quem realmente se estarrece agora? Certamente não são os homens acostumados a uma cultura de pornografia que faz parte da matriz de subjetivação pela violência típica da educação machista. Tampouco, aqueles que analisam os fatos na base de teorias da conspiração que servem apenas para apagar a perspectiva de gênero necessária à reflexão. Orecorte de gênero é evitado por homens à direita ou à esquerdaque estão acostumados a tratar corpos femininos como inferiores.
Nessa linha, cabe dizer ainda que a ilha de Epstein era um campo de concentração sexual em que meninas eram abusadas de todos os modos por homens ricos e brancos, de diversas idades por décadas. Mas é importante frisar que homens de todas as culturas, raças, classes, religiões olham para as mulheres com esse tipo de olhar masculino, que é idêntico aoolhar branco (Franz Fanon falava de um “olhar branco” que violentava o negro), idêntico também ao olhar do colonizador(Cristovão Colombo olhando para a terra da qual vai se apropriar), privilégio que o sistema patriarcal confere aos corpos preferenciais do sistema. O que Epstein fez foi apenas arregimentar e organizar um impulso típico do sistema levando-o às últimas consequências.
Por isso, todos é importante meditar sobre esse caso como a expressão típica de um patriarcado que agiu apenas segundo sua própria lógica, exacerbada até a destruição de todo limite. Lembrando sempre que o capitalismo e o neoliberalismo, assim como o fascismo (Trump no meio disso tudo explica muita coisa) são filhos e netos do patriarcado e correspondem em tudo a sua lógica predadora.
Estamos diante de um projeto maníaco que incluía o arquivo no qual Epstein construiu um museu de abjeção sexual contra meninas transformadas em “res sexualis” nas taras de homens brancos capitalistas, neoliberais, que agem como donos do mundo. São abusadores econômicos, colonizadores de corpos e mentes, agentes da submissão, criadores de sofrimento e dor.
Muitas pessoas estão chocadas com a realidade que vem à tona, mas quem sabe como funciona o patriarcado e não tem medo de usar as categorias necessárias à analise, como gênero, raça e classe, por exemplo. E quem sabe como funciona, sabe que é possível mudar esse estado de coisas e que não devemos perder a esperança em um mundo mais digno livre de misoginia, de racismo, de capacitismo e de pedófilos como Trump e Epstein que, assim como Hitler, tem seus avatares por todo lado.