Misoginia e feminicídio: um nexo cultural letal

No final de 2025, publiquei um livro chamado “Ninfa Morta, uma história do ódio às mulheres” pela editora Planeta. Essa obra é o resultado de 20 anos de leitura e investigação filosófica sobre o tema da morte das mulheres. Minha suspeita era de que haveria um nexo entre a misoginia como ideologia expressa em textos religiosos, filosóficos, literário, bem como obras de arte, e a matança histórica de mulheres que vem à tona com intensidade monstruosa em nossos dias. 

Busquei fazer uma anatomia da sociedade patriarcal, ela mesma fundada no ódio. Mas não era fácil demonstrar o nexo entre misoginia e feminicídio, ou seja, o elo estreitíssimoentre discurso de ódio e matança de mulheres, assunto central do meu livro. 

A dificuldade não era teórica, mas retórica. Tendo em vista que a retórica dominante é pautada numa episteme patriarcal, ou seja, numa forma de pensar e agir que prioriza a fala dos homens e seus discursos, que não aceita a crítica, que não deixa expressar uma visão diferente, como explicar que o patriarcado era a “ideologia de gênero”, produtora de corpos e mentes, que justamente construía o gênero matador e o gênero matável? 

Como explicar que os homens nascem sob direitos gerados por um “contrato social” que protege a mera vida e que as mulheres não estão cobertas por esse contrato social porque estão sujeitas desde sempre a um complexo “contrato sexual”que as coloca como trabalhadoras escravizadas a serviço do gênero oposto e sempre ameaçadas de morte violenta na contramão de toda filosofia política tradicional? 

Como explicar que “gênero” é a palavra usada para informar sobre a produção dos corpos na sociedade patriarcal? Como explicar que os corpos e também as mentes são produzidosculturalmente e não são simplesmente algo “natural”? Como explicar que a própria noção de natureza foi inventada e reproduzida na teoria para orientar a prática de homens e mulheres, eles essenciais, elas inessenciais, como dizia Simone de Beauvoir?

Como explicar que a linguagem, que a produção simbólica, que a fala, os discursos, inclusive o discurso de ódio definido como “misoginia”, tenha uma função estrutural, ou seja, organiza as relações entre as pessoas colocando os homens em posição de vantagem e privilégio e as mulheres numa posição inferior e menos importante? 

Como explicar que os corpos femininos foram marcados para servir aos privilégios masculinos quando uma grande parte da população acredita que os homens são humanamente melhores mesmo apenas por serem homens? 

Como explicar que a masculinidade é forjada pela moral e pela estética da violência? Como esclarecer que a estética dos homens é baseada na violência decorativa que serve para criar um clima de medo nas mulheres e nos corpos femininos em geral? como explicar que os homens matadores reagem a um ideal masculino que se exige deles e que é interiorizado como um valor quando ele representa apenas a grande miséria espiritual do machismo? Como explicar que a sociedade que mata mulheres e cultua o “macho viril” e odeia a si mesma?

Como explicar que, por mais que os homens matem uns aos outros em profusão, a maioria das mulheres assassinadas o épor questões de gênero, ou seja, os homens cometem feminicídio, enquanto as mulheres raramente matam homens e muito menos por questões de gênero? Como explicar que um homem nunca é morto por ser homem? 

Como colocar em questão para pessoas acostumadas ao mundo patriarcal, que a violência é uma espécie de matriz de subjetivação dos homens, enquanto as mulheres sãosubjetivadas por meio do cuidado e que isso nada tem a ver com natureza biológica, mas com padrão cultural ligado a poder? 

Como explicar que, sendo formados pela violência, mesmo os homens que não gostariam de ser violentos, estão sempreautorizados a sê-lo e praticar violências em geral no sistema patriarcal? Como explicar para pessoas que não querem ouvir,que as mulheres não são culpadas por serem vítimas? 

Como explicar que, se estamos falando de sistema patriarcal, as mulheres também podem acabar sendo patriarcais? 

Como explicar que a misoginia é uma tecnologia política e que as mulheres são construídas como inimigas desde as mais remotas épocas, mas também a cada dia nos meios de comunicação e nas redes sociais? Como explicar que há nexos íntimos entre machismo e fascismo e que a onda de feminicídios atual não é gratuita, mas remonta à ultima década politica quando Bolsonaro abriu o cofre do ódio liberando armamentos como se fossem brinquedo? Como explicar que é preciso superar o patriarcado e evitar a misoginia e o feminicídio e que, por isso, a violência contra as mulheres deve ser tratada como um tema de “segurança pública”? Como explicar que a regulamentação das redes sociais é urgente para conter a machosfera que se vale da violência liberal e liberada no rentável mercado do ódio onde se criam Red Pills e Incels sem escrúpulos morais e loucos por dinheiro e poder? Como explicar que a criminalização da misoginia que tramita no congresso nacional vai ser barrada por todos os narcisistas que gozam com a misoginia em beneficio próprio?

Como explicar que somente a consciência feminista pode mudar esse estado de coisas?

Tive que ser exaustiva na argumentação, pois o horror do objeto investigado assim exigia. O problema colocado era indigesto e as palavras precisavam ser colocadas com rigor, embora fossem também difíceis, mas não mais difíceis do quea realidade dos fatos. 

A consciência sobre esse tema é mais do que necessária nesse momento. O poder da misoginia é o poder do ódio no patriarcado que constrói as subjetividades à sua semelhança e devora cada uma e cada um, muitas vezes os próprios filhos. 

Espero que, no futuro, meu livro não passe de um documento teórico de uma época passada. Que o assunto cuja filosofia política eu busquei fazer, se torne desinteressante pelo desaparecimento do terror que me obrigou a escrever suaspáginas. 

*Publicado no dia 25 de março de 2026 no site Liberta.

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