O que une os homens na morte de Maria Eduarda, lançada de uma ponte de 40m de altura.
Uma jovem de 21 anos foi arremessada de uma ponte em Limeira (SP), quando praticava um esporte radical chamado rope jumping. Esse esporte se define, como o próprio nome diz, como o salto (jumping) com uma corda (rope).Contudo, faltou a corda. O acoplamento da corda deveria ter sido providenciado pelos três funcionários, que alegam não ter se dado conta da falta do equipamento. Na verdade, eles não seguiram os procedimentos de segurança, como haviam feito antes com três homens que participavam do mesmo esporte. Na hora de Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, os três funcionários homens foram negligentes e acabaram por matá-la.Certamente, não é o caso de falar em feminicídio. Ninguém pode alegar isso antes que se investigue e se mostre o que, de fato, aconteceu. Mas que três pessoas – no caso, três homens – tenham “errado” na hora de lançar a jovem, na sequência em que haviam lançado três outros homens devidamente checados nos esquemas de segurança desse esporte, nos obriga a aprofundar a análise – menos numa direção psicanalítica e mais numa direção estética, em que precisamos nos dedicar ao roteiro, aos personagens e à cena como um todo. Ou seja, precisamos analisar a tragédia.
Cartografia da subjetividade humana
Toda tragédia tem uma mulher morta, com algumas exceções, historicamente conhecidas como Medeia, a sobrevivente de Eurípedes (na verdade, é Glaucia, a nova esposa de Jasão que morre). Sejam as jovens sacrificadas aos deuses, sejam as esposas suicidadas, de Antígona a Ofélia, o que vemos é sempre a morte de uma mulher como uma cena tão necessária quanto apoteótica.Nicole Loraux, em Maneiras Trágicas de Matar uma Mulher, fala das mortes femininas como mortes que trazem prazer aos olhos e aos ouvidos masculinos, enquanto Edgar Allan Poe diz que uma bela mulher morta é o motivo mais poético do mundo, ou seja, uma forma de sucesso literário.Em certo sentido, somos feitos de textos. Por isso, Freud decidiu usar a tragédia do Édipo como cartografia da subjetividade humana. Infelizmente, não se interessou em analisar com mais profundidade Antígona ou mesmo Hamlet para entender que o “sujeito” masculino projeta uma mulher morta, como vemos em Gaston Bachelard ao falar de Ofélia: Hamlet é quem construiu seu suicídio.Nos dois cenários, porém, o que impera é a coisificação da vítima em prol do espetáculo, da adrenalina ou do puro desleixo operacional exercido por sujeitos que detêm o controle da ação. Essa espetacularização, contudo, não se encerra no momento da queda. Ela se estende no tempo, revelando uma cruel divisão entre uma pré-morte e uma pós-morte.
Festim diabólico da corda ausente
A pré-morte de Maria Eduarda desenha-se na negligência, no desleixo operacional dos três funcionários homens e na misoginia estrutural, que transforma o corpo feminino em um objeto descartável de entretenimento radical. Já a sua pós-morte ganha contornos digitais ainda mais perversos. Após a tragédia, o ambiente virtual foi inundado por comentários de homens de teor nitidamente necrofílico, nos quais o corpo morto da jovem foi despudoradamente sexualizado.Esse fenômeno demonstra que, para o olhar patriarcal, a dignidade e a humanidade da mulher são inteiramente negadas. Ela permanece submetida ao desejo de posse, degradação e consumo sexual mesmo após deixar de existir. A violência, portanto, se perpetua além do fim biológico, fazendo com que a cena trágica continue a ser encenada e profanada sob os olhos do público virtual.A ironia trágica do nome do esporte nos remete imediatamente ao cinema. Em 1948, Alfred Hitchcock dirigiu Rope (no Brasil, Festim Diabólico). No filme, dois jovens estrangulam um colega de faculdade com uma corda apenas para provar uma suposta superioridade intelectual, transformando o assassinato em uma obra de arte estética, um espetáculo escondido sob os olhos dos convidados de um jantar.Na ponte de Limeira, a rope (corda) assume uma função invertida, mas igualmente cinematográfica: a sua ausência deliberada é o que dita o roteiro. O crime em Hitchcock acontece pelo uso da corda; a tragédia de Maria Eduarda acontece pela sua falta. No caso da tragédia de Limeira, os três funcionários operaram na mesma frequência de descolamento da realidade que os personagens de Hitchcock: o outro não é um fim em si mesmo, mas um mero joguete em um cenário de simulação.
A negloptência como regime político do olhar
Para compreender o que a esfera jurídica chama de “distração” ou “erro processual”, podemos usar o conceito de “negloptência” no sentido de política do “não ver”, como administração organizada da cegueira social diante daquilo que não se quer enxergar.A negloptência vai além da negligência clássica. Enquanto a negligência é uma omissão técnica, a negloptência é um regime óptico-político: ela determina quais corpos merecem olhar atento e quais corpos podem ser jogados na invisibilidade.Portanto, temos que ficar atentas à dinâmica da cegueira seletiva, que levou alguém que assistia à cena gritar “a corda!”. Um grito de desespero, que é uma interpelação “ACORDA!” para os que “dormiam” extasiados diante da morte projetada (o corpo deu uma jovem projetado na morte). Quando os três operadores checaram com minúcia milimétrica a segurança dos três homens que saltaram anteriormente, seus olhos estavam operando sob o código do valor e do espelhamento do igual.Ao chegar a vez de Maria Eduarda, a negloptência entra em cena. O corpo feminino na borda do abismo é naturalizado pela cultura como o corpo do sacrifício inevitável. Ativa-se o “não ver”. Esquece-se a corda porque, no fundo da iconografia ocidental, o desaparecimento da mulher na queda livre já foi normalizado por séculos de literatura e arte.
O tribunal do mito e a segurança real
A negligência é evidente e criminosa. Caberá à Justiça decidir se o evento foi “doloso” (com intenção) ou simplesmente culposo, sem intenção. No entanto, o direito penal opera na superfície dos fatos – avalia cabos, mosquetões e cronômetros. A justiça humana julgará o erro da mecânica, mas cabe à crítica cultural julgar o erro da cultura.Se os operadores do salto estivessem diante de um espelho que refletisse a história do Ocidente, veriam que repetir o erro de Hamlet diante de Ofélia, ou reencenar a frieza de Rope, não é uma mera distração estatística. É a perpetuação de uma estrutura onde o feminino paga o preço da espetacularização e do descaso óptico. A verdadeira “segurança que falta” não é apenas o cabo de nylon ou a checagem do equipamento. É a incapacidade social de romper com a negloptência que nos cega.Até que sejamos capazes de reescrever esses textos profundos que nos moldam, continuaremos a assistir, atônitos, à queda real de jovens reais de pontes de 40 metros de altura, enquanto a burocracia tenta decidir se o horror foi uma questão de milímetros ou de milênios.
Marcia Tiburi
*Publicado em Junho de 2026 no site Liberta. Link da matéria.